quarta-feira, 10 junho , 2026

Meu voto: não o dou por gosto, mas por valores a preservar

Pensar o tempo presente não é tarefa simples. Estamos nele, estamos implicados por ele. Sendo impossível o afastamento histórico para alcançar alguma objetividade, há que se decidir atravessado por conteúdos ideológicos em pleno vigor.

Ideologia é a matéria do pensamento. Ninguém alcança a condição de a-ideológico, ou de não ideológico, dado que ideologia, no sentido dicionarizado de ideário, é exatamente a compreensão e explicação de mundo que se tem.

Já se creu em neutralidade, como se o sujeito que pensa e explica um acontecimento pudesse fazê-lo com isenção. Bobagem! Nós entendemos os fatos a partir de “modos” de pensar previamente instalados em nossas cabeças.

Assim, quando alguém julga e atua, na vida privada ou pública, fá-lo sempre a partir de “suas” concepções de mundo, de valores internalizados, ou inscritos no seu corpo. Cada qual mede com um metro muito particular de medir as coisas.

De onde vêm os elementos valorativos que estão em mim e com os quais eu penso e explico o mundo, aferindo eventos e decidindo sobre eles? Eles me vêm de discursos que estão em circulação e que de algum modo me alcançaram.

Discursos formam amarrações sociais. Todo grupo social produz discursos que se tornam elementos de união, elaborando laços identitários. Se não existir amarração social, não existe cultura. Agora, que discursos nos têm alcançado?

Discursos são sempre oriundos de um lugar de poder. Na presente eleição dois sistemas de discurso político lograram condições suficientes para obter posição de disputar a Presidência da República em segundo turno.

O lulopetismo e o bolsonarismo é o que temos como opção. São as alternativas. A escolha de não escolher, sem ilusão, é uma ilusão. Seja: não escolher é também uma escolha. É a mais covarde decisão que alguém pode tomar.

Pode-se escolher por eleição do melhor, pode-se decidir por exclusão do pior. Pode-se declarar com asco de tudo isso que está aí a anulação do voto, ou o voto em branco; pode-se, mas não se deve. A cidadania pede presença e compromisso.

Que é ideologicamente o lulopetismo? A meu ver é uma conjunção das comunidades eclesiais de base, o chamado catolicismo de esquerda (sim, um contrassenso), do sindicalismo de Lula e do stalinismo de José Dirceu.

Durante quatro décadas o Partido dos Trabalhadores se fez catalizador de diversas tendências, com proeminência dessas três correntes, e vendeu ao Brasil um idealismo que o desqualificaria conceitualmente como organização esquerdista.

Atropelando o conceito, o PT se faz acreditar e é havido como a principal sigla partidária de esquerda que temos. Tenho outra consideração: o petismo instalou-se e se manteve fundado em mistificação e ladroagem.

Quanto à mistificação, exemplifico com o seu tão repetido discurso de inclusão. Em 2012 o governo petista redefiniu a classe média, considerando que a ela pertencem indivíduos com renda entre R$ 291,00 e R$ 1.119,00.

Com uma manobra contábil que meramente redefinia pisos de renda, o petismo “tirou” da pobreza milhares de brasileiros. Só que não. Ainda que em outra classificação estatística, os brasileiros “elevados” não elevaram ganhos.

Quanto a roubar, é verdade que no Brasil a tradição de apropriar-se do erário é muito mais antiga do que o PT. Mais antiga e não menos danosa, talvez. Qual a diferença? Por que a condenação legal e moral mais incisiva ao petismo?

O PT organizou a corrupção e fez dela política de Estado. Os cargos de governo foram distribuídos conforme a intenção de roubo. Capturou-se o Congresso. Os altos cargos da República foram postos na folha de pagamento de empreiteiras.

Que é o bolsonarismo? É o cristianismo fundamentalista feito discurso (e prática) circulante. As igrejas cristãs pentecostais e o catolicismo retrógrado são os maiores produtores de discurso do Brasil. Bolsonaro catalisou esse “pensamento”.

Crença bimilenar, capacidade midiática única, potência econômica invejável, crescimento político avassalador. Tudo isso fornece estofo para as falas de Bolsonaro: ordem patriarcal, moral purificada, “deus” acima de tudo.

Meus valores são outros. A História é produzida pela Humanidade, a Humanidade tem que dar conta de si. O Renascimento inventou o humano moderno, o Iluminismo o consolidou. O humano moderno declarou direitos à Humanidade.

Não quero e nem saberia abrir mão desses valores que me alcançaram e que me constituíram laico, democrático e republicano. Tudo em mim tem posição consolidada contra valores medievais. Vivi a vida em contraposição a eles.

Ademais disso, seu rotundo desapreço a preceitos caros à democracia: Bolsonaro valoriza a Ditadura de 1964, prestigiando seus piores facínoras; desconsidera a importância do Congresso Nacional; insulta o Judiciário.

Em enfrentamentos com policiais, defende pena de morte por decisão sumária; afronta as lutas por diversidade; ofende as conquistas de gênero; não alcança a compreensão do que seja direito de minoria; prega a violência como método.

Então vou votar em ladrão? O PT chafurdou em corrupção. Tudo está aí aos olhos de quem queira ver. Trata-se de coisa documentada. De Haddad, candidato alternativo a Bolsonaro, contudo, não se pode dizer que seja corrupto.

E quanto à quadrilha? A agremiação lulopetista, afinal, foi indigitada de organização criminosa ladravaz por ninguém menos do que o ministro Joaquim Barbosa, munido de provas incontroversas. Como vou justificar meu voto?

Pelo mal menor. Os erros partidários, os desvios de dinheiro público, as malversações protetivas dos “companheiros”, de tudo isso a Polícia, o MP e Justiça têm dado conta. Não é coisa pouca a rapina, mas está submetida ao Estado de Direito.

O Estado de Direito sob os valores do bolsonarismo, entretanto, estão ameaçados. As conquistas da Tradição Ocidental, que nem bem se assentaram no Brasil, estão sob discurso cerrado de crenças de antanho, de crenças do atraso.

Não é do meu jeito me omitir. Tenho que votar. Vou votar. O meu voto não será por gosto, mas trata-se, antes, de ser uma recusa. Eu recuso Bolsonaro e o tanto e quanto ele significa. Antes de tudo, aliás, Bolsonaro não significa a mim.

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